| Mercado de produtos e serviços relacionados à sustentabilidade se expande e deve alcançar US$ 1 trilhão por ano em 2014. |
| Os chamados negócios verdes vêm gradualmente deixando de ser apenas um apelo à consciência coletiva para se tornar regra de sobrevivência de empresas no mundo globalizado. Nos últimos anos, empresas e governos vêm sendo cada vez mais cobrados a apresentar certificados que atestem a sustentabilidade de seus produtos e serviços, incluindo desde matérias-primas empregadas até o nível de comprometimento social dos seus executivos. Em paralelo, vigilantes comunidades na internet ameaçam colocar marcas consagradas na marginalidade, divulgando deslizes ambientais e éticos.
A economia verde movimenta centenas de bilhões de dólares em todo o mundo e consultorias estimam que, a partir de 2014, alcançará a marca de US$ 1 trilhão por ano, mudando radicalmente o panorama econômico atual, com a inclusão de emergentes como China e África do Sul. De olho nesse mercado, o setor privado vem avançando mais rápido que os Estados na nova seara de negócios. “Iniciativas de empresas de todos os tamanhos ganham escala e reduzem o custos de inovações. Experiências são trocadas e negócios promissores estão sendo abertos”, afirma Marina Grossi, presidente-executiva do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), entidade que reúne os maiores grupos econômicos do país. Embora análises pessimistas observem que o medo de uma recessão global pode retardar novos passos institucionais e até provocar retrocessos, Marina afirma que já foram derrubados “certos tabus, como o de que produto orgânico e energia alternativa não têm preços competitivos”. As áreas de turismo e cosméticos estão provando que árvores em pé valem mais que derrubadas e Florestas artificiais dão múltiplos usos para a mesma madeira. O eucalipto, além de ter se tornado fonte de renda para produtores, tem despertado outros setores, como a apicultura. O recurso se tornou ainda suporte para o ramo carvoeiro, com mais de um milhão de hectares plantados para a geração do carvão vegetal destinado ao consumo industrial e doméstico. André Lobo Faro, gerente nacional da Husqvarna, líder no fornecimento de equipamentos para o manejo de áreas verdes, ressalta que a próxima inovação será transformar celulose em etanol em escala comercial. A engenheira Ana Maria Abraão, sócia da consultoria Ambiente Eficiente, incubada na Universidade de Brasília, informa que empresas têm buscado mais certificações internacionais de sustentabilidade e projetos de prédios verdes. “Mesmo com instalações entre 5% e 10% mais caras, o setor privado percebe que ganha com o maior tempo de vida dos espaços e com a economia de energia e água, além do respaldo da opinião pública”, sublinha. Marina Grossi torce para que a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, encontro de líderes mundiais a se realizar na capital fluminense em 20 e 22 de junho, recoloque na trilha sustentável governos de países desenvolvidos. Ela lembra que a promessa do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de dar forte incentivo aos negócios verdes acabou barrada por impasses políticos.
Eólicas como opção a hidrelétricas As alterações climáticas deverão centralizar os debates da Conferência Rio+20 e podem esbarrar em decisões sobre assuntos polêmicos no Brasil, como a construção da usina de Belo Monte, no Rio Xingu (PA). A Agenda 21, compromisso assinado pelos 177 países da Eco 92, no Rio, vem se consolidando e muitos governantes pensam duas vezes antes de tocar grandes empreendimentos de infraestrutura. Uma das consequências disso é o avanço recente da energia dos ventos (eólica) no país, que já tem participação significativa nos leilões de compra para o Sistema Interligado Nacional (SIN). “O aproveitamento do potencial eólico do país é muito menor, se comparado à realidade de Estados Unidos e Alemanha, por exemplo. Mas ele já participa e amplia rapidamente sua presença como energia complementar à hidrelétrica, provocando impacto ambiental bem menor”, afirma Álvaro Araújo, diretor-geral da Energimp, maior geradora do segmento no país, com capacidade, atual e em instalação, de mil megawatts (MW) em quatro estados. Barateamento Na visão de Araújo, as novas tecnologias estão tornando a atividade mais produtiva e menos cara. A participação da energia eólica na matriz energética brasileira, hoje em 0,8% do total, deverá atingir 7% em 2020, prevê o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDEE), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Mas as companhias do setor querem chegar a 15% nesse mesmo prazo. Elas defendem a realização de leilões exclusivos de compra e a busca da independência tecnológica. Se as previsões do setor estiverem corretas, o barateamento será inevitável. Além das regiões Nordeste e Sul, onde é forte a presença de ventos e usinas, estudos indicam que Minas Gerais tem um dos maiores potenciais inexplorados. “O estado possui três Itaipus em energia eólica”, assegura Araújo. (SR) Perda global só aumenta O desarranjo do clima tem elevado o número de acidentes naturais e, consequentemente, causado prejuízos incalculáveis ao planeta. Nos últimos cinco anos, eles somaram US$ 750 bilhões. O cálculo é do Grupo Independente de Investigação (IEG, na sigla em inglês), uma entidade ligada ao Banco Mundial (Bird). “As catástrofes naturais estão mais comuns e as perdas são cada vez maiores. Só em 2010, os prejuízos com cheias e desastres no mundo somaram US$ 110 bilhões, mais que o dobro do registrado no ano anterior”, diz o vice-presidente do IEG, Vinod Thomas. Contabilizados os reflexos das perdas provocadas pelo tsunami que matou mais de 300 mil pessoas na Indonésia no fim de 2004, o ano de 2005 foi o primeiro a registrar um saldo surpreendente: US$ 250 bilhões de prejuízos. “Por isso, é fundamental que os governos estejam comprometidos em poluir menos e mais preparados contra os efeitos das mudanças climáticas”, avalia Thomas. Em 2011, somente os gastos decorrentes dos terremotos e do tsunami no Japão, em 11 de março, superaram os US$ 300 bilhões – um novo recorde. E nem sequer entraram na conta os danos com furacões nos Estados Unidos. A constatação é de que, nos dias de hoje, as atenções precisam ser redobradas diante do avanço dos desastres naturais. Nos anos 1980, lembra Thomas, as perdas eram bem menores e giravam em torno dos US$ 40 bilhões anuais. “Além das mudanças climáticas, o aumento da população em áreas de risco tem colaborado bastante para o maior volume de vítimas e de prejuízos materiais”, pondera o especialista. O aumento das enchentes, por exemplo, está diretamente ligado ao das emissões de gás carbônico (CO2). Alimentos “O dilema de investir para estimular a economia e aumentar o deficit do governo é a preocupação dos economistas. Mas se os países aplicassem US$ 40 bilhões anuais, esse valor seria suficiente para cumprir metas de cortes na emissão de carbono e ajudaria a minimizar o impacto das mudanças climáticas”, calcula Thomas, que foi diretor do Bird no Brasil de 2001 a 2005. Para o executivo, o importante é antecipar as intervenções para minimizar prejuízos. “Os governos precisam investir em ações mais efetivas. Existem desastres que vão voltar todos os anos e é preciso estar preparado”, alerta. Não há outra saída. “Tem que se reconstruir áreas devastadas para evitar futuras enchentes”, afirma. A alta dos preços dos alimentos é outro efeito dos desastres climáticos. Levantamento recente do Bird sobre a forte alta dos preços das commodities (produtos básicos comercializados internacionalmente) e o impacto disso na vida das pessoas mostrou que os preços dos alimentos subiram 15% no último ano, jogando mais 44 milhões de indivíduos na pobreza. “De 2008 a 2009, existiam 100 milhões de pessoas vivendo de forma precária no planeta e o número atual é crescente”, assegura Thomas, autor do livro O Brasil visto por dentro – o desenvolvimento em uma terra decontrastes, de 2005. Fonte: GasBrasil |
